Entre Cuiabá e São Félix, ônibus precários e passageiros esquecidos
Quem embarca de ônibus em Cuiabá com destino a São Félix do Araguaia sabe que a viagem será longa. O que muitos não esperam é enfrentar, além das horas na estrada, ônibus em condições precárias. A jornada começa por volta das 22h e, após cerca de 14 horas de viagem, inclui uma baldeação em Ribeirão Cascalheira, na hora do almoço. Se o primeiro ônibus já apresenta problemas de conservação, o veículo utilizado no segundo trecho, até São Félix do Araguaia, também é alvo de reclamações de passageiros por suas condições de conservação.
Relatos obtidos pela reportagem apontam problemas que vão desde banheiros danificados e sem condições adequadas de uso até equipamentos quebrados no interior dos veículos. Em uma das viagens acompanhadas pela reportagem, o banheiro já apresentava problemas desde a saída de Cuiabá, com peças enferrujadas, suporte para papel higiênico danificado e ausência de água no vaso sanitário, apesar das instruções de uso afixadas no local.
Outro ponto que chama a atenção é a estrutura oferecida aos passageiros. A água disponibilizada durante a viagem fica armazenada em um garrafão identificado como água mineral, e passageiros questionam a procedência e as condições de armazenamento do produto. Também foram observados suportes quebrados, improvisações para manter equipamentos em funcionamento e sinais de desgaste nos veículos.
Apesar das reclamações ouvidas pela reportagem nos corredores dos ônibus e nos terminais, poucos passageiros aceitam falar publicamente sobre o assunto. O motivo, segundo eles, é o receio de sofrer constrangimentos futuros ou ter dificuldades para utilizar o serviço novamente. Em uma região onde as opções de transporte são limitadas, muitos preferem o silêncio à exposição.
As queixas não se restringem às condições dos veículos. Passageiros também relatam dificuldades relacionadas às gratuidades destinadas a idosos. No transporte intermunicipal, é obrigatória a reserva de duas vagas gratuitas por veículo com mais de 20 lugares e de uma vaga gratuita nos veículos com até 20 lugares.
Em uma viagem recente, uma usuária, que preferiu não se identificar, afirmou ter sido informada por funcionários da empresa de que não havia mais vagas gratuitas disponíveis para idosos no trecho entre Ribeirão Cascalheira e São Félix do Araguaia. No entanto, segundo ela, as duas poltronas reservadas para esse benefício permaneceram desocupadas durante todo o percurso. A passageira também relatou outro problema envolvendo a cobrança da taxa de embarque. “Quando cancelei a viagem e não me devolveram a taxa de embarque, mesmo eu não tendo embarcado” afirmou.
Procurada, a empresa responsável pela linha, a Rio Novo Transportes, não respondeu aos questionamentos encaminhados até o fechamento da reportagem.

*em 2025, as manifestações relacionadas à reserva de vagas corresponderam a 7,65% do total de reclamações registradas;
Fiscalização ocorre por amostragem
Questionada sobre as condições dos ônibus que operam a linha Cuiabá–São Félix do Araguaia, a Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados de Mato Grosso (AGER/MT) informou que realiza fiscalizações contínuas e por amostragem em todas as regiões do Estado. Segundo o órgão, durante as vistorias são verificados aspectos relacionados à segurança, regularidade da operação e qualidade do serviço prestado aos usuários.
De acordo com a agência, fiscalizações extraordinárias são realizadas nas garagens das empresas. No entanto, ao ser questionada sobre quando ocorreu a última inspeção nos veículos utilizados na rota, a Ager não informou uma data específica. Em resposta à reportagem, limitou-se a afirmar que os ônibus estão sujeitos a fiscalizações regulares e periódicas, realizadas de forma contínua ao longo da operação do serviço.
A agência confirmou que suas equipes verificam as condições de banheiros, poltronas e demais equipamentos internos dos veículos, observando aspectos relacionados à segurança, conservação e conforto dos passageiros.
Entretanto, a resposta não esclarece de forma objetiva situações observadas pela reportagem, como peças quebradas, pontos de ferrugem, suportes danificados e a ausência de água no vaso sanitário do banheiro. Ager ressaltou que, “em viagens longas, as condições de limpeza podem se alterar em razão do uso pelos passageiros”. Porém os problemas encontrados vão além de questões relacionadas à conservação cotidiana e incluem sinais visíveis de desgaste e equipamentos danificados.
Sobre as irregularidades relatadas pela reportagem, a agência informou ainda que, caso sejam confirmadas em fiscalização, poderão ser adotadas medidas administrativas, incluindo notificações e aplicação de multas. O órgão também orientou os usuários a registrarem reclamações por meio dos canais oficiais da Ouvidoria para subsidiar ações de fiscalização.
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