O respeito à identidade mato-grossense nos une
Em relação à disputa eleitoral deste 2026, ouvi, dias atrás, em conversa com um amigo cuiabano, bem vivido, na faixa de 70 anos de idade, uma frase-desabafo acompanhada de um longo e desanimado suspiro. “Agora, só ganha aqui em Mato Grosso quem é loiro e tem olhos azuis”.
Ele se referia a um personagem aleatório, emergente do agronegócio, sem identidade com o estado, mas possuidor de muito dinheiro com o qual abre caminhos e angaria votos em quantidade para consolidar sua vitória no pleito.
Seria um contraponto ao perfil nosso, nativo, que, fisicamente, reflete a miscigenação entre indígenas, brancos e negros, tornando a população parda numerosa em Mato Grosso, além de adaptada ao calor. Porém, pensando bem, os contrastes não param nessa observação do amigo, daí que merecem reflexões de nossa parte.
No quesito econômico, por exemplo, sabe-se que o tímido panorama produtivo mato-grossense de antes agora é suplantado pela força do agronegócio, muito fomentado pela leva de migrantes que Mato Grosso passou a receber a partir de meados do século passado.
Assim, nesse cenário atual de transformações e desenvolvimento das regiões do estado, considero que nossa identidade regional, que é o conjunto de referências política, econômica, social e cultural mato-grossenses, precisa, sim, ser fortalecida nas pautas das eleições de outubro.
Deve subir de patamar e ser incluída como base de escolha de representantes nossos para o Executivo (majoritárias) e Legislativo (proporcionais) nas eleições 2026. Pessoalmente, vou buscar, entre os candidatos dos partidos com os quais me identifico, esses traços regionais.
Para alguns, isso pode aparentar algo fora de moda, considerando a diversidade de Mato Grosso, mas ainda assim julgo importante. Penso que a identidade pode ser trazida de volta à memória até como um sinal de unicidade, pertencimento, cultural e de preservação de biomas (floresta, pantanal e cerrado).
Daí que observarei, positivamente, posições de candidatos que defendem as questões ambientais, culturais, de saúde pública, educação, segurança, além de combate à violência contra mulher. Além das pautas associadas à defesa da democracia, da soberania nacional e das políticas públicas para redução das desigualdades, entre outras em benefício da população como um todo.
Em contrapartida, de forma desfavorável, registrarei posicionamentos daqueles perfis de concorrentes que se distanciam da nossa identidade regional, como, por exemplo, aqueles gestores e parlamentares estaduais que propuseram e aprovaram a lei que limita a criação de novas unidades de conservação em Mato Grosso, atualmente em análise no STF.
Também exemplo desta mesma direção de desapego à identidade local, e ainda em análise no Supremo, está a Lei da Pesca, que vem prejudicando pelo menos há três anos os pescadores ribeirinhos mato-grossenses. Neste estado diverso e rico, as oportunidades devem abranger todos e não se restringir somente aos endinheirados.
Nos tempos atuais, é sempre bem-vindo recordar as palavras do ex-deputado cuiabano João Antônio Malheiros: “Não é mato-grossense apenas quem nasce nesta terra, mas também quem a incorpora em sua essência”. Acrescento eu – seja ele branco, preto ou pardo, rico ou pobre.
E, aproveitando o mote da coluna, incluo o ensinamento do professor Germano Aleixo Filho (UFMT) sobre o erro que os ‘estrangeiros’, residentes ou não em nosso estado (atenção, candidatos!), insistem em repetir, que é referir-se a Mato Grosso usando o impróprio artigo o.
A toda e qualquer hora e ocasião, “escrevemos sempre, digamos sempre: moro em Mato Grosso, venho de Mato Grosso, vou a Mato Grosso”. Mais ainda: adoro Mato Grosso. Sempre sem o descabido artigo.
“Por mais cristalizado que esteja, o erro pode ser eliminado quando propalada sua correção”, reitera o professor Germano
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