COLUNA

Adriana Mendes

adrianam@ehfonte.com.br

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Presidente da ALMT é citado em investigação do TCE-MT

Uma engrenagem financeira e política que conecta o Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT) e a Assembleia Legislativa (ALMT) é um dos eixos das investigações da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR) que resultaram na prisão do presidente da corte de contas, Sérgio Ricardo. Documentos obtidos pelo Eh Fonte apontam repasses de agências de publicidade à rádio da família do presidente da Assembleia, deputado Max Russi (Podemos), e R$ 112 milhões em emendas parlamentares destinados ao tribunal. A finalidade desses pagamentos ainda precisa ser esclarecida.

Além do presidente do TCE-MT, outros cinco servidores foram presos  na semana passada, no âmbito da mesma operação.  O ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), também determinou o afastamento cautelar de quatro conselheiros e funcionários da corte de contas.

Em relação à Assembleia Legislativa, a apuração examina a destinação de verbas parlamentares, a cessão de servidores e propostas legislativas que, segundo os investigadores, teriam sido feitas sob encomenda. Os documentos também apontam uma “folha paralela” e pagamentos a empresas privadas, entre elas veículos de comunicação ligados à família do presidente da ALMT.

Documentos da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, obtidos pelo Eh Fonte, revelam repasses de agências de publicidade contratadas pelo poder público à Rádio Vale das Perdidas de Jaciara. A emissora pertence a Sophia Wagner Russi, ex-secretária municipal de Assistência Social de Jaciara (MT). Ela é filha de Max Russi e de Andreia Wagner, prefeita da cidade.

Procurada, a empresária afirma que “todos os recursos recebidos” pela emissora foram em razão da prestação de serviços de “divulgação de materiais institucionais” do tribunal.

O levantamento financeiro do MPF identificou as transferências entre janeiro e abril de 2025. A principal remetente foi a Zimmermann Publicidade e Propaganda, que repassou R$ 127 mil à rádio. Também foram registrados pagamentos da DMD Associados e Assessoria e Propaganda Ltda. (R$ 40 mil) e da Ziad A. Fares Publicidade (R$ 8 mil), totalizando R$ 175 mil das três agências. No mesmo período, a emissora recebeu R$ 21 mil da empresa Russi & Russi Ltda.

“Parte do que as contratadas receberam seguiu para empresas que convertem os valores em espécie ou para a rádio da família do Presidente da Assembleia Legislativa, Max Joel Russi”, apontou a Procuradoria-Geral da República (PGR).

Além dos créditos recebidos das agências de publicidade, a análise da movimentação bancária da Rádio Vale das Perdidas revelou pagamentos efetuados pela própria emissora. No mesmo período analisado, a rádio repassou R$ 150 mil à empresa Rádio a Voz D’oeste, que pertence a familiares (irmão, sobrinho e filho) do ex-governador de Mato Grosso Silval Barbosa.

Segundo os autos, a investigação apura um possível esquema de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro por meio de contratos de publicidade e repasses financeiros, com indícios de atuação coordenada entre agentes públicos e particulares.

Da Assembleia ao TCE

A ligação entre os dois órgãos também aparece na trajetória de três dos presos na operação: Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, Adriangelo Barros Antunes e Roseli Loss. Todos passaram pela Assembleia Legislativa antes de ocupar funções estratégicas no TCE-MT.

Procurador de carreira da ALMT desde 2014, Grhegory foi cedido ao tribunal em fevereiro de 2020 para chefiar a Consultoria Jurídica-Geral. Segundo a investigação, foi o maior beneficiário individual das transferências analisadas, com R$ 32,3 milhões recebidos em 217 lançamentos bancários. A PGR atribui a ele a “chancela jurídica da estrutura”.

Adriangelo, ex-cunhado de Sérgio Ricardo, também foi cedido pela Assembleia ao TCE-MT e, após se aposentar pelo Legislativo, foi nomeado secretário executivo da Comissão Permanente de Meio Ambiente e Sustentabilidade do tribunal. Segundo a PF, imagens da agência do Sicoob instalada no TCE mostram o servidor entrando com mochilas vazias e saindo com elas carregadas de dinheiro sacado por Roseli.

Chefe de gabinete da presidência do TCE-MT, Roseli trabalhou na Assembleia entre 1999 e 2013, período que abrange os mandatos de Sérgio Ricardo como deputado estadual. De acordo com a investigação, ela era procuradora das contas bancárias do conselheiro e a principal responsável pelos saques presenciais, que somaram R$ 18,9 milhões entre janeiro de 2025 e maio de 2026.

Emendas sem identificação

O TCE-MT recebeu, nos exercícios de 2025 e 2026, de acordo com o relatório, R$ 112 milhões em emendas parlamentares aprovadas e transferidas pela ALMT. Os recursos ingressaram nos cofres do órgão de controle sob a classificação genérica de “lideranças partidárias”, sem identificação individual dos deputados estaduais proponentes.

De acordo com o relatório da PF, “a dinâmica de como as emendas parlamentares são apropriadas no orçamento do TCE/MT ainda carece de maior aprofundamento, porém vai ao encontro da maximização do orçamento destinado ao custeio de verbas indenizatórias”.

O Eh Fonte revelou em maio do ano passado, na série Balcão de Emendas, que o Tribunal de Contas pagou despesas salariais, auxílio-alimentação e auxílio-saúde com recursos provenientes de emendas parlamentares. Na época, a Assembleia confirmou a destinação dos recursos como “adequações ou correções nos duodécimos dos Poderes”.

Procurado para explicar os R$ 112 milhões, o presidente da Casa afirmou inicialmente, por meio de nota, que as informações eram “falsas, fantasiosas” e estariam sendo “plantadas” por alguém de má-fé. Segundo ele, nunca houve tais emendas, individuais ou de lideranças partidárias, durante sua gestão como presidente da Assembleia. Ao ser novamente questionada, a assessoria acrescentou que o presidente não tinha conhecimento das emendas e que seria “pedida uma auditoria”. A destinação das emendas está registrada no Portal da Transparência.

No início da noite de ontem (2), a assessoria voltou a entrar em contato para informar que houve uma “confusão” e que a nomenclatura estaria incorreta. De acordo com a última  explicação, os valores são repassados pelo governo estadual como emenda à  Lei Orçamentária Anual (LOA). (Leia aqui)

Mudanças na fiscalização

A relação entre a ALMT e o TCE-MT também aparece nos documentos sobre a aprovação de mudanças que beneficiaram a cúpula do tribunal e reduziram o quadro de servidores responsáveis pela fiscalização. Os documentos descrevem desde a nomeação de um conselheiro em apenas 24 horas até a extinção gradual de cargos de controle externo.

Em dezembro de 2025, o então procurador de contas Alisson Carvalho de Alencar assumiu a vaga aberta pela aposentadoria de Valter Albano. A indicação, a sabatina, a aprovação em plenário e a nomeação ocorreram em um único dia. A escolha foi precedida por uma Emenda Constitucional aprovada pela ALMT, que deu prioridade aos procuradores de contas sobre os auditores substitutos na composição da lista tríplice.

Um mês antes, a Assembleia aprovou uma lei estadual que previu a extinção gradual de cargos de auditores e técnicos de controle externo. A norma também autorizou a colocação de servidores efetivos em “disponibilidade”. Segundo os documentos, o número de servidores concursados caiu de 346 para 221. No mesmo cenário, o quadro de cargos comissionados chegou a 573.

Ao fundamentar as prisões e as demais medidas cautelares, o ministro Og Fernandes descreveu o fluxo financeiro identificado pela investigação.

“As diligências preliminares, consistentes em análise de dados públicos, relatórios de inteligência financeira, imagens de circuito interno bancário e afastamento pontual de sigilo anteriormente deferido, revelaram pagamentos extraordinários efetuados pelo TCE/MT a agentes públicos e particulares, em valores incompatíveis com os limites legais e sem correspondência com a remuneração oficial divulgada, seguidos de saques vultosos em espécie, pulverização de recursos entre diversas contas e aquisição de patrimônio supostamente incompatível com a renda declarada.”

Entre repasses, mudanças legislativas e servidores que migraram da Assembleia para o tribunal, a investigação expõe diferentes pontos de conexão entre os dois órgãos. É preciso esclarecer em que medida essa relação comprometeu a independência do TCE-MT, responsável também por fiscalizar as contas do Legislativo.

 

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