Oferta de R$ 100 mil e suspeita de mensalinho são investigadas em VG

A Justiça de Mato Grosso autorizou buscas e apreensões realizadas pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) para investigar suspeitas de compra de votos para a eleição da Mesa Diretora da Câmara de Várzea Grande, pagamento de um suposto “mensalinho” a vereadores e pressão sobre parlamentares. Entre os relatos que embasaram a decisão está o do vereador Caio Cezar Cordeiro de Almeida (Novo), que afirmou ter recebido uma oferta de R$ 100 mil para apoiar a recondução de Wanderley Cerqueira (MDB) à presidência da Casa. O vereador disse ter recusado a proposta.

A hipótese de um mensalinho aparece ainda no depoimento de uma testemunha com identidade protegida. Segundo a decisão, ela descreveu um mecanismo que envolveria distribuição de cargos, retenção de cartas de renúncia em branco e uso de gravações para pressionar os parlamentares.

Os vereadores foram monitorados por meio de drone durante o período em que permaneceram reunidos em uma chácara no Distrito da Guia, às vésperas da eleição. Houve também apreensão de R$ 40 mil em um carro ocupado pelos vereadores de Cuiabá Alex Rodrigues (PV), Ilde Taques (Podemos) e pelo assessor Vanderlucio Rodrigues da Silva Junior. Taques foi eleito para presidência da Câmara de Cuiabá no biênio 2027/2028.  A defesa do vereador informou que ele colaborou com o trabalho das autoridades.

De acordo com a decisão, o suposto grupo buscaria assegurar a permanência de Wanderley no comando da Câmara no biênio 2027–2028 e exercer influência sobre o Departamento de Água e Esgoto (DAE) e o transporte coletivo municipal. A apuração também menciona articulações para pressionar a prefeita Flávia Moretti (PL) e abrir caminho para um processo de cassação.

Ao autorizar as diligências, o juiz Cássio Leite de Barros Netto, do Núcleo de Justiça 4.0 do Juiz das Garantias, afirmou haver indícios consistentes de crimes contra a administração pública, extorsão e ameaças. A decisão é cautelar, destinada à coleta de provas, e não representa condenação dos investigados. O pedido de busca e apreensão foi feito antes das eleições.

O documento também cita uma conversa atribuída a Carlos Cesar Bocão com alegações sobre pagamentos periódicos de R$ 10 mil. Nesse ponto, registra expressamente que se trata de informação declaratória, cuja veracidade e contexto precisam ser confrontados com outras provas.

Interesses no DAE

Outra frente da apuração envolve uma eventual concessão ou privatização do Departamento de Água e Esgoto (DAE). Segundo Caio, Wanderley teria mencionado a possibilidade de distribuir aproximadamente R$ 500 mil a cada vereador caso a operação fosse concretizada.

A investigação trabalha com a suspeita de que o interesse na autarquia poderia envolver influência sobre decisões administrativas, distribuição de cargos e obtenção de vantagens indevidas. O relato sobre os valores, contudo, não comprova que tenha ocorrido pagamento.

Imagens da reunião da chacará em Várzea Grande/ Foto: reprodução

Reunião em chácara

A apuração teve início a partir de denúncia anônima sobre uma reunião de vereadores em uma chácara no Distrito da Guia, na véspera da eleição da Mesa Diretora, marcada para 14 de maio. A denúncia apontava suspeita de uso de dinheiro em espécie para comprar votos.

Imagens registradas por drone mostram  o vereador Miguel Júnior (Cidadania) em uma área aberta da propriedade, ao lado de outras pessoas. O parlamentar aparece usando camiseta cinza e short branco. Há ainda fotografias aéreas que mostram veículos estacionados e pequenos grupos reunidos no terreno. O vereador Braz Jaciro (PSDB)  aparece sentado em uma cadeira, de pernas cruzadas, usando camiseta e short brancos.

A reunião ocorreu no contexto da disputa entre Wanderley Cerqueira e Lucas do Chapéu do Sol. Parlamentares permaneceram reunidos na propriedade nos dias que antecederam a votação.  O presidente da Câmara de Várzea Grande classificou a operação como “suspeita” e afirmou que não deve nada à Justiça. Os vereadores envolvidos também negaram as acusações.

Acesso a dados

Além das buscas, o juiz autorizou o acesso ao conteúdo dos equipamentos apreendidos, incluindo mensagens, fotografias, documentos e registros de chamadas.

Google, Microsoft e Apple receberam ordens para preservar e fornecer dados das contas indicadas na decisão, referentes ao período de janeiro de 2024 até o cumprimento da medida. A determinação abrange arquivos em nuvem, e-mails e conteúdos excluídos que ainda possam ser recuperados.

Em decisão complementar de 19 de outubro, o magistrado corrigiu endereços e autorizou o cumprimento de uma busca no Hospital Municipal de Cuiabá, onde Kleberton Feitoza estava internado.

 

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